CARREGAR MAIS

Brasil é o maior produtor de café do mundo e quem lucra mais é Alemanha

08/10/2018 12h54 Atualizado em 08/10/2018 14h54
 

Por Redação Transpodata

redacao@transpodata.com.br

Itália e Alemanha importam em média 8,6 milhões de sacas de café verde por ano do Brasil e do Vietnã. Depois, compram, processam, torram, moem, empacotam e vendem. Os cafeicultores brasileiros que conseguem levar sua marca ao exterior são uma exceção.

Maior produtor e maior exportador mundial de café, o Brasil perde bilhões de dólares todo ano por vender apenas a matéria-prima, sem agregar valor ao grão verde. Em 2016, o Brasil exportou 34 milhões de sacas de 60 quilos, com receita de US$ 5,4 bilhões (FOB). O problema é que apenas 10% desse montante sofreu alguma forma de processamento industrial antes de ser embarcada.

Um dos obstáculos ao crescimento das exportações brasileiras de café industrializado é o fato de as grandes empresas brasileiras de solúvel terem capital estrangeiro, ou seja, não há interesse no crescimento da economia nacional. Pior, apenas um em cada cem quilos exportados pelo País tem marca própria, com rótulo original Made in Brazil.

Só para se ter uma ideia, a Alemanha não produz uma saca sequer de café, mas compra o grão verde do Brasil em sacas de 60 quilos, transforma o produto em bebida solúvel e reexporta, com valor agregado. Assim, o País europeu vendeu o equivalente a 1,08 milhão de sacas em 2016.

Dos 60 milhões de sacas produzidas por ano no país, 20 milhões são consumidos por aqui e o resto exportado. O Brasil segue sendo o maior exportar do mundo, logo a frente de Suíça e Alemanha, que apesar de não plantarem um único pé de café, dominam parte relevante do mercado de café no mundo.

Em termos de cápsulas e extratos, aparecem em 2014 como exportadores relevantes também. O mercado de cápsulas ilustra a falta de capacidade do Brasil de adicionar valor aos seus produtos básicos e subir na escada tecnológica rumo ao desenvolvimento econômico.

A mais recente fábrica da Nespresso construída na cidade alemã de Schwerin representa um dos maiores investimentos feitos no setor nos últimos anos. A escala de produção e a localização da cidade de Schwerin no centro da rede consumidora europeia tornam a competição para empresas brasileiras muito difícil. Na fábrica, os 350 empregos gerados pagarão salários interessantes e adicionarão ainda mais riqueza a região.

O saco de café de 60kg que sai no Brasil a R$400 ou seja, R$6,6 o quilo, se transforma numa cápsula que é vendida no varejo por R$400 o quilo. O preço remunera a construção da fábrica e gera um fluxo de salários (e “produtividade”) lá bem maior do que aqui. Depois a cápsula é reexportada para o Brasil e vendida por um preço 70 vezes maior do que o preço de saída.

Aqui no Brasil um lojista ganha um salário baixo de serviço não sofisticado para vender a cápsula. O “barista” consegue ainda adicionar algum valor para tentar vender o produto um pouco mais caro. O ciclo de pobreza e riqueza do café se fecha então. Quem ganhou dinheiro mesmo foram os alemães e suíços que “processaram” o café.

Como a Alemanha consegue esse elevado desenvolvimento econômico?

Na Alemanha, dos 80 milhões da população, 41,5M (51,8%) trabalhavam em 2011. Dos que trabalhavam, 17,52% estavam na industria e 15,34% nos serviços empresariais e finanças. Ou seja quase 36% em empregos do tipo engenharia, design, marketing, II, gestão, todos eles com grandes economias de escala e alta qualificação.

No Brasil, para uma população de 200M em 2011, 105M (52,5%) trabalhavam em 2011. Desses 10,6% estavam na industria, bem mais low tech em relação a Alemanha e 10,5% em serviços empresariais e finanças, também menos high tech do que na Alemanha. Ser um país pobre equivale a não ter complexidade econômica nem empregos de qualidade.

Tomemos por exemplo o estado alemão de Baden-Wurttemberg que conta com 10 milhões de habitantes e produz o equivalente ao PIB norueguês e 3x mais do que o PIB português. O que se produz lá que faz com que as pessoas sejam tão ricas e eficientes? A produção de riquezas naturais e agricultura é praticante irrelevante. A grande fonte de riqueza e produtividade desse estado está na produção de bens transacionáveis sofisticados. Aí se baseiam companhias como Porsche, Hugo Boss, Zeiss, Mercedes e SAP e inúmeras outras nas áreas de mecânica de precisão e maquinaria.

O estado não é rico graças aos seus recursos naturais, é rico por conta de sua rede produtiva altamente sofisticada que abastece o mundo inteiro com bens transacionáveis complexos. Ainda na mesma região, no estado vizinho da Bavaria os destaques são:  BMW, Audi, Siemens, Continental, MAN, Puma e Adidas.

Uma maneira simples para se entender o que é desenvolvimento econômico é pensar em termos de sofisticação produtiva. São ricos e desenvolvidos aqueles países capazes de produzir e vender no mercado mundial bens complexos e sofisticados. São pobres aqueles apenas capazes de produzir e vender coisas simples e rudimentares.

Por isso o desenvolvimento econômico pode também ser entendido como a capacidade de uma sociedade de conhecer e controlar técnicas produtivas, especialmente nos mercados mundiais mais relevantes.

A NKG Kala Hamburg, por exemplo, processa e armazenda grãos de todo o mundo em Hamburgo, onde fica o segundo maior porto da Europa. A empresa se especializou no processamento e também em logística e tenta manter sua estrutura ocupada o máximo possível para garantir rentabilidade. Como se tornou especialista em identificar demandas por misturas de arábica e robusta, vende serviço e conhecimento técnico associados ao grãos.

Por outro lado, presta também serviços simples, que poderiam ser feitos nos países de origem. É o caso da limpeza dos grãos, que atravessam o Atlântico e chegam à Alemanha com até 4% de impurezas.

Na rede industrial alemã, os grãos são espremidos, inchados e passam por processos químicos que conferem diferentes gostos à bebida. Variações na acidez, na umidade e nas misturas vêm sendo testadas para ampliar a lista de opções, que cada indústria pode encomendar para justificar seus rótulos. Das instalações da KNG saem cafés para Sara Lee, Aldi, Starbucks, West Coffee. Ao movimentar até 240 toneladas por hora, estima estar servindo o mercado com produto suficiente para 50 bilhões de copos de café ao ano. Dois terços da produção ficam na própria Alemanha, onde a participação no mercado estaria em 60%. A empresa recebe cafés do Brasil três vezes por semana.

Veja também Como os irmãos Dutra construiram sua marca de café internacional

 

 
LEIA TAMBÉM