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Curitiba inicia projeto de testes com ônibus Scania movido a GNV e a biometano

14/03/2019 15h35 Atualizado em 16/03/2019 22h52
 

Por Maria Alice Guedes

malice@transpodata.com.br

O anúncio feito ontem (13/03) pela Prefeitura de Curitiba e a montadora de ônibus Scania faz parte do programa de renovação de frota e do projeto que visa a redução das emissões de gases poluentes e do custo operacional por quilômetro rodado no transporte municipal. 

Além dos seis ônibus biarticulados Scania entregues para a população de Curitiba, o ônibus da Scania movido a GNV (Gás Natural Veicular) e também a biometano, vai atuar nas linhas da Viação Cidade Sorriso, na região do Gramados em linhas como Terminal Sítio Serrado e Terminal Capão Raso, ainda no mês de março. O fornecimento de combustível para os testes e demonstrações será feito pela Copagás, do Governo do Estado do Paraná e uma empresa de reciclagem que produzirá o biometano. 

Perda de passageiros 

A fim de recuperar o setor de transporte urbano, a prefeitura e o governo do estado vão investir neste ano R$ 240 milhões. Em renovação de frota já foram investidos mais de R$ 150 milhões, além das  reformas em terminais com previsão de R$ 85 milhões e mais R$ 5 milhões nas reformas das estações-tubo. 

Dessa forma, o risco de que o sistema de transporte da capital paranaense perca sua atratividade, como vem acontecendo nos últimos anos, começa a diminuir. Em 2018, os ônibus da Capital perderam 2,89 milhões de passageiros, uma queda de 1,61% na comparação com o ano anterior. Isso representa a perda de 7.923 passageiros pagantes por dia, em média. 

O projeto vai destacar novamente a cidade de Curitiba como centro de referência em inovação de transporte de passageiros. Maurício Gulin, presidente do Setransp

 

Catarina Simões tem 6 anos e utiliza ônibus para ir à escola - Foto (Joseli Simões)

Além da renovação de frota e do projeto de sustentabilidade da matriz energética, Curitiba precisa fazer ainda mais para ser exemplo de mobilidade urbana. As novas gerações tem outras expectativas.

Catarina tem 6 anos, é curitibana e adora andar de ônibus, diz sua mãe Giselle Simões. Elas fizeram o passeio inaugural dos ônibus biarticulados Scania. Entretanto, é uma geração que tem o mundo na 'palma da mão', conhece os benefícios dos aplicativos e está cada vez mais conectada à mobilidade compartilhada.

Por isso, entre as sugestões do Setransp (Sindicato das Empresas de Transporte Urbano e Metropolitano de Passageiros de Curitiba e Região Metropolitana) estão a modernização do sistema de bilhetagem eletrônica, disponibilização em tempo real de informações aos passageiros, aumento da segurança no transporte coletivo, acompanhamento permanente dos custos e receitas pelos órgãos públicos de controle e sociedade civil, entre outros.

Rafael Greca disse que quer implantar no sistema da cidade um novo tipo de integração, nos moldes do Bilhete Único de São Paulo, pelo qual o passageiro pode mudar de linha em qualquer ponto, sem ter a necessidade de se deslocar para estações e terminais.

Para isso, é necessário que a Câmara Municipal de Curitiba aprove mudanças sobre a lei de bilhetagem eletrônica. Com o novo modelo, Greca quer criar tarifas diferenciadas de acordo com o tipo de linhas de ônibus. "A bilhetagem automática nos dará condições de ter tarifas diferenciadas em percursos regionais", disse.

Potencial de Biogás no Brasil

O potencial de biogás no setor de resíduos urbanos é de quase 4 bilhões de m³ por ano, o que representa mais de 10 mil MW de energia que deixa de ser aproveitada, segundo dados da ABiogás. Existem no Brasil cerca de 2 mil aterros, mas apenas 19 geram energia elétrica a partir do biogás. Essas energias renováveis como biogás/biometano representam alternativas positivas para o setor de transportes.

Os aterros hoje são obrigados a queimar o metano porque é mais contaminante que o CO2 para a camada de ozônio. É um grande desperdício de recursos que poderia contribuir com a melhoria da mobilidade urbana. Para o transporte de passageiros seria ainda mais vantajoso, em razão da alta produção de lixo das grandes cidades que vai para os aterros, e automaticamente produzem metano. Esse metano também vira o biogás que, purificado, se transforma em biometano. Mas sem aproveitamento correto, tudo isso vai para a atmosfera.

Projetos dessa natureza devem estimular a regularização de aterros e lixões. No aterro sanitário da Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, são descarregadas 2,5 mil toneladas de lixo por dia. Conforme levantamento do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), 98 municípios do estado ainda levam o lixo para locais irregulares — 24 para lixões e 74 para aterros controlados. Os outros 301 fazem a destinação adequada para aterros sanitários.

 Aterro Sanitário da Estre em Fazenda Rio Grande (Região Metropolitana de Curitiba)

Gás X Diesel

Comparado com um veículo similar a diesel, um ônibus emite 85% menos gases poluentes quando abastecido com biometano e 70% menos quando funciona com GNV, além de também reduzir a poluição sonora. Segundo Silvio Munhoz, a Scania fez a mesma demonstração em São Paulo, durante os meses de junho a agosto de 2015, onde o veículo rodou 5.000 km movido a gás num total de 12 semanas por duas linhas do Sistema SPTrans, e os resultados aferidos pela Netz Engenharia Automotiva mostraram que o custo por km do GNV foi 28% inferior ao do diesel, já contabilizado o consumo do Arla 32.

No entanto, não houve interesse dos empresários. "Eles ainda estão muito presos aos veículos a diesel”, lamentou Munhoz. Talvez essa defensiva tenha se instalado, em razão do que ocorreu na década de 90, com os ônibus mais antigos movidos à gás com injeção mecânica, quando nem todo o gás dos cilindros das carretas eram aproveitados e o tempo de abastecimento era muito longo.

Com o atual sistema de injeção eletrônica, a quantidade correta de gás é regulada por softwares. "Há sondas na entrada e na saída do gás que enviam a mensagem para o motor que corrige imediatamente a quantidade de metano a ser queimada. A diferença de tempo de enchimento de um tanque de ônibus à gás em relação ao diesel, é de apenas um minuto", diz Munhoz. 

Mortes por poluição do ar

Levando-se em conta que a poluição urbana causa cerca de 1,3 milhão de mortes por ano no mundo, segundo a OMS, e que só em São Paulo morrem 4 mil anualmente, não há justificativa para a falta de sustentabilidade do sistema de transporte.

Paulo Saldiva, médico especialista em poluição atmosférica e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), diz que “não há impedimentos técnicos ou falta de conhecimento para que esse problema seja resolvido. Temos todas as condições de resolver o problema da poluição do ar em nossas cidades", afirma.

Biometano no Transporte de Passageiros

O agronegócio já acordou para o enorme desperdício de fontes de combustíveis alternativos. Empresas do setor vêm começando a investir na produção de biogás para geração de energia elétrica e de biometano para aplicação veicular. O que para o transporte de passageiros será mais vantajoso, pois o biometano não necessita de subsídios do governo, ou seja, não haveria aumento de tarifas dos ônibus.

"Precisamos que os órgãos do governo conheçam esse ciclo de benefícios e o viabilizem, expandindo o uso do biometano”, observa Munhoz. Recentemente, a montadora venceu licitação para o fornecimento de mais de 500 unidades para o Transmilênio, da Colômbia, onde já operam unidades, inclusive biarticuladas, com esse tipo de combustível.

 

 

 
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